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Hospitais contam como reduzem os eventos adversos investindo em ferramentas e estratégias de comunicação entre equipes

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Hospitais contam como reduzem os eventos adversos investindo em ferramentas e estratégias de comunicação entre equipes

A comunicação adequada salva vidas. é o que demonstra um estudo publicado no brasil em 2016 para identificar se fatores organizacionais estão associados a uma redução de mortalidade para doentes com câncer de mortalidade para doentes com câncer. De acordo com Vivian Giudice, diretora de planejamento e controle do Instituto Brasileiro para Excelência em Saúde (IBES), dados da JCAHO trazem que a comunicação ineficaz é a primeira causa ou representa cerca de 70% das causas-raízes de eventos adversos em organizações de saúde. E esse número é o mesmo identificado na aviação. “Considera-se comunicação, a verbal ou escrita e ineficácia, a ausência de comunicação, a comunicação errada ou incompleta e até a interpretação errada do que foi comunicado”, explica.

A partir da análise de dados de quase dez mil pacientes internados em 70 UTIs de 49 hospitais, os pesquisadores perceberam que há maior sobrevida dos pacientes internados nos hospitais que seguem rotinas de comunicação, como reuniões diárias para troca de informações. Com esse objetivo, instituições têm aprimorado procedimentos e técnicas para homogeneizar e difundir dados entre profissionais das diversas áreas que compõem os cuidados em unidades assistenciais.

O coordenador do estudo, o pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), Márcio Soares, explica que a interação da equipe da UTI com os oncologistas está associada com uma maior sobrevida dos pacientes e com o uso mais eficiente de recursos no tratamento do doente. Conversas sobre opções e metas para o tratamento, além do uso de protocolos para unificar as informações, são determinantes para a conquista de resultados positivos.

O hospital Israelita Albert Einstein experimentou na prática o efeito que processos de comunicação trazem para a vida dos pacientes. A instituição implementou, em 2017, o chamado Safety Huddle e, desde então, viu seus números negativos despencarem. O processo consiste em reuniões diárias para o compartilhamento de informações em tempo real sobre potenciais problemas envolvendo pacientes. A ideia é criar uma cultura de segurança na organização.

De acordo com os dados do hospital, em 2016, antes da implantação do Safety huddle, a média de dias entre os chamados eventos catastróficos na Uti era de 42 dias. Já em 2018, com a implantação dos novos processos, esse intervalo saltou para 678 dias. Além disso, foi registrado um aumento de 34% das notificações de near miss e eventos sem danos ao paciente. Ou seja, em todos esses casos, a instituição conseguiu diagnosticar potenciais erros graves antes que eles ocorressem.

Segundo a gerente de Qualidade e Segurança do Paciente do Einstein, Fernanda dos Anjos, a equipe multidisciplinar formada por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos de enfermagem, farmacêuticos, entre outros, se reúne diariamente para repassar os pontos que merecem ser priorizados em tempo real. Tais reuniões ocorrem em três níveis: localmente, nas unidades assistenciais, em níveis de gestão e, por último, com a alta direção do hospital. O processo foi iniciado em 2016 com um projeto piloto no hospital Santa Catarina cuja gestão é feita pela equipe do Einstein e, um ano depois, foi aplicado no próprio Einstein. “Os resultados têm sido fantásticos, com melhora na cultura, menos insegurança da equipe e ações de melhoria ocorrendo em tempo integral”, enfatiza Fernanda.

Para manter o nível de qualidade, o processo nas unidades ocorre todos os dias da semana e os encontros com a direção acontecem de segunda a sexta e, em caso de necessidade, também nos sábados e domingos. A equipe de UTI do Einstein não sofre nenhuma alteração aos finais de semana, o que garante a manutenção do nível de qualidade no atendimento.

No momento, o Safety Huddle está em ampliação no Einstein para a área diagnóstica e laboratorial, e a meta, segundo Fernanda, é que alcance todos os setores. “Quanto mais pudermos ver todas as áreas falando sobre riscos identificados, teremos melhores soluções e resultados”, destaca. “Se o setor de farmácia, por exemplo, percebe que o estoque de um medicamento está acabando e haverá atraso na liberação, vamos ver o que aconteceu e vamos discutir a melhor estratégia para lidar com o problema”.

Ainda segundo Fernanda, até a área de tecnologia está envolvida com o processo. A gerente conta que recentemente o sinal de wi-fi da UTI do hospital estava fraco, o que ocasionou problemas para acesso aos prontuários eletrônicos dos pacientes. “A questão foi levada para o Safety Huddle da direção do hospital e em cinco minutos tínhamos um técnico definindo uma ação para melhoria imediata. Depois de resolver a instabilidade do wi-fi da UTI o técnico passou por todas as áreas do hospital para checar a situação da conexão e, dessa forma, evitar qualquer outro tipo de problema”.

Guias internacionais que abordam a técnica de Safety huddle listam algumas questões que devem ser feitas durante os encontros das equipes, tais como “O que aconteceu?”, “Quem foi afetado?”, “Quais são as demandas dos pacientes, familiares e funcionários?”, “Quais são as ações para prevenir uma nova ocorrência do problema?”.

Os manuais falam ainda sobre como as instituições de saúde podem iniciar o processo de Safety Huddle. Entre os principais passos, estão o engajamento de lideranças, o foco inicial em uma única unidade hospitalar e o uso de exemplos de situações recentes em que esse mecanismo poderia ter ajudado ou até evitado a ocorrência de um cenário negativo.

PASSAGEM DE BASTÃO

O pesquisador do IDOR Márcio Soares salienta que não é à toa que hoje o setor de saúde dá tanta atenção à comunicação, por meio de soft skills – competências que envolvem aptidões mentais, emocionais e sociais – e, também, por processos, sobretudo em momentos de mudanças de plantão. No caso da “passagem de bastão”, quando um paciente sai da UTI e é encaminhado para o quarto, por exemplo, é necessário seguir processos padronizados.

Antônio Bafi, coordenador da equipe de UTI do Hospital Sepaco, em São Paulo, afirma que as Unidades de Terapia Intensiva têm grande dependência das áreas de apoio e que, por isso, há um monitoramento constante, além de uma preocupação com a comunicação. “Temos como meta que os laudos de tomografia sejam entregues em 30 minutos. Se extrapolam esse prazo, vamos conversar para entender o que aconteceu”, diz. “Saímos, assim, da zona de percepção para uma constância e conseguimos otimizar a comunicação”, completa.

O Einstein trabalha com várias estratégias de comunicação para garantir o alinhamento de informações e continuidade dos cuidados em momentos sensíveis como o de mudança de plantão. Os prontuários são todos eletrônicos, e o hospital desenvolveu um checklist com nove questões sobre o quadro geral da UTI, com o objetivo de facilitar o olhar geral da equipe multidisciplinar. As questões passam por pontos como número de leitos ocupados, nomes dos pacientes em estado mais crítico, previsões de alta, adequação da escala de profissionais considerando o cenário na UTI, previsão de procedimentos invasivos para as próximas horas, etc.

O CopaStar do Rio de janeiro também se apoia na tecnologia para melhorar a comunicação. O hospital desenvolveu recentemente um aplicativo para que os médicos da UTI possam acessar dos seus celulares todas as informações de um checklist feito durante as trocas de equipe. A ideia, de acordo com o coordenador de CTI do CopaStar, Fábio Miranda, é homogeneizar todas as informações. “Os ruídos na comunicação geram grandes problemas. Além de disponibilizar todas as informações no celular, procuramos trabalhar com serviços mais horizontais, com menos plantonistas”, diz Miranda.

SOFT SKILLS

Aprimorar a troca de informação é essencial para se alcançar melhores resultados na área de saúde. A essencialidade da comunicação vai do momento em que o médico confirma com o paciente qual dos dois joelhos dele será o operado e faz uma marcação na pele, passando pelo processo de receitar um medicamento, até a mais difícil das situações: informar à família sobre a morte ou complicação do quadro de um parente. “hoje, há um investimento grande da área da saúde em desenvolvimento de soft skills para que a equipe saiba se comunicar com os pacientes e seus familiares. Esse é um tema muito negligenciado nas escolas médicas”, contextualiza Soares.

Além da comunicação entre equipes, os profissionais do setor já contam com ferramentas desenvolvidas para encorajar o paciente a assumir o controle do seu tratamento. O “Ask me 3”, por exemplo, é um programa desenvolvido pela National Patient Safety Foundation para incentivar as pessoas a se fazerem três perguntas para a autocompreensão das suas condições clínicas: “Qual é o meu problema?”, “O que eu preciso fazer?” e “Por que é importante para mim fazer isso?”. O Ask me 3 é difundido por meio de folders e vídeos transmitidos em salas de espera de consultórios médicos, entre outros.

Por Raquel Gondim - Dez/2018
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