UTIs adequam equipe em busca de melhores resultados

Hospitais criam modelo alternativo e vão além do mínimo exigido pela RDC; Apesar disso, quadro geral no país é insatisfatório

UTIs adequam equipe em busca de melhores resultados

Hospitais criam modelo alternativo e vão além do mínimo exigido pela RDC; Apesar disso, quadro geral no país é insatisfatório

É sabido que uma equipe adequada interfere fortemente nas rotinas de cuidados dos pacientes, em especial daqueles em estado grave. Uma estrutura adequada de staff resulta em uma maior sobrevida dos doentes e em uma alocação mais eficiente de recursos. Apesar disso, o que se percebe na prática são equipes mal dimensionadas e pouco especializadas.

A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) da Anvisa dispõe sobre requisitos para funcionamento de UTIs com a indicação do número mínimo de profissionais por leito. de acordo com a RDC, todas as unidades de terapia intensiva devem ter, pelo menos, um médico diarista, um médico plantonista, um enfermeiro e um fisioterapeuta para cada dez leitos, além de um técnico de enfermagem para cada dois leitos. Há a necessidade ainda de mais um técnico de enfermagem para serviços de apoio assistencial em cada turno.

Porém, segundo especialistas, o que a Anvisa exige é apenas o “mínimo do mínimo” em termos de pessoal e, por isso, muitos hospitais, sobretudo os privados, criam modelos alternativos que superam o exigido por lei.

DADOS

Há anos o pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) Márcio Soares acompanha a relação de fatores organizacionais com a evolução de pacientes e com os custos das UTIs brasileiras. O projeto intitulado Orchestra (Organizational Characteristics in Critical Care – Características Organizacionais em Cuidados Intensivos) abrange vários estudos desenvolvidos a partir de 2013 com cerca de 100 UTIs e de 200 mil pacientes de 11 estados brasileiros. ele lembra que o envelhecimento da população e o consequente aumento da incidência de doenças crônicas, somado ao crescimento das chamadas ‘causas externas’, como acidentes de trânsito, irão intensificar a demanda por terapia intensiva. “o Brasil e outros países emergentes não são tão privilegiados em relação a recursos que, portanto, precisam ser alocados de forma eficiente nas UTIs”, pontua.

Soares explica que a estimativa é que o brasil invista entre 0,5% e 0,6% do PIB em suas unidades de terapia intensiva, enquanto em países desenvolvidos essa fatia chega a 1%.

De modo geral, o que se vê em todo o país são estruturas de equipes de UTI mal dimensionadas e ausência de processos fundamentais. Em seus estudos, Soares averiguou que em apenas metade das unidades de terapia intensiva pesquisadas, a equipe de médicos, enfermeiros e fisioterapeutas se reúne diariamente para discutir os casos dos internados. O mesmo ocorre com os processos de checklist: apenas 50% das estruturas de emergência têm como rotina a checagem de itens e aspectos de saúde relacionados a cada paciente, o que poderia prevenir complicações, reduzir tempo de internação e evitar eventos adversos. Os protocolos para minimizar riscos como os de infecção, por exemplo, também não são realidade em muitos hospitais.

Outra situação de preocupação é com os pacientes internados nos fins de semana. Um dos estudos feitos por Soares identificou que pessoas hospitalizadas no sábado ou no domingo para a realização de cirurgias eletivas têm maior chance de viver um desfecho pior devido às escalas reduzidas que costumam trabalhar nesses dias. “Identificamos que para minimizar os riscos para os pacientes é necessário que os hospitais mantenham seus processos de protocolos, check lists e mesmo padrão de enfermagem também nos fins de semana”, afirma o pesquisador.

Em termos de padrão de staff, foi observado que as UTIs que contam com médicos intensivistas todos os dias da semana, além de uma maior proporção de enfermeiros por leito e farmacêutico clínico, são mais eficientes e garantem maiores taxas de sobrevidas dos internados. “O ponto mais grave é o da enfermagem. Se eu tivesse que investir para melhorar o staff de uma UTI, certamente seria nessa área. Para se ter uma ideia, nos países desenvolvidos, a proporção é de um enfermeiro para cada um ou dois leitos e, em muitos, o técnico de enfermagem é proibido”, compara Soares.

Para Camila Paiva, diretora comercial de Marketing e Relacionamento Médico do Imed Group, o ponto-chave para um bom dimensionamento é entender as necessidades dos pacientes que estão alocados na UTI. Isto é, a quantidade de profissionais na UTI depende mais da gravidade da saúde dos pacientes do que a quantidade de leitos ocupados.

“Não levamos em consideração apenas a RDC para colocar a quantidade de médicos na UTI, mas consideramos o perfil da instituição e a gravidade dos pacientes. Em UTIs que sabemos que há pacientes mais graves, deixamos mais médicos para prestar os cuidados, e quando há mais pacientes com menor gravidade, deixamos menos médicos”, explica Paiva.

PRÁTICA

O coordenador da UTI do Sepaco, localizado em São Paulo, Antônio Bafi, concorda que as exigências básicas para as UTIs brasileiras não são suficientes quando se fala de equipes. No caso da enfermagem, o hospital se planeja de acordo com a demanda. A legislação é seguida considerando os funcionários fixos, mas, eventualmente, é flexibilizada de acordo com a necessidade de assistência, chegando à proporção de um enfermeiro para cada oito ou seis leitos. O Sepaco tem hoje 40 leitos de UTI e um giro, em média, de 200 a 250 pacientes por mês.

Além da customização do time de enfermagem, o Sepaco conta com uma estrutura maior de médicos diaristas na UTI, o que, segundo Bafi, garante mais linearidade nos casos. “isso é relativamente incomum nas UTIs, que costumam ter muitos plantonistas. Dessa forma, conseguimos maior coesão dos cuidados e do relacionamento familiar, o que permite uma grande satisfação do cliente”, disse.

Bafi é crítico em relação à legislação mínima para o staff das unidades de terapia intensiva. “Os requisitos da RCD para estrutura física e de equipamentos atendem perfeitamente, mas, não para a equipe de assistência”, opina. “Não basta ter profissional apenas por regulamentação, é aí que a coisa se perde. é preciso implementar gestão de resultados, reuniões para discussão de indicadores e desenvolver protocolos e check lists”.

A implantação desses processos feito por Bafi e sua equipe que estão à frente da coordenação da UTI do Sepaco desde 2013, resultou em números importantes. em 2014, por exemplo, o hospital implementou um protocolo que ajudou a reduzir as taxas de mortalidade dos pacientes com sepse de 45% para os atuais 12% considerando o mesmo perfil de doentes.

A equipe de Bafi também está à frente da UTI do Hospital São Paulo, que faz atendimento ao SUS. A área, coordenada por Flávia Machado, também implementou instrumentos de gestão que resultaram neste ano na Certificação por Distinção concedida pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). de acordo com Bafi, embora os hospitais públicos tenham um desafio maior relacionado aos recursos humanos, é possível refinar o serviço de emergência por meio de processos eficientes.

Para o coordenador de CTI do hospital CopaStar, do Rio de Janeiro, Fábio Miranda, o grande desafio das UTIs é justamente criar mecanismos e protocolos para melhorar os indicadores. No hospital, há reuniões diárias das equipes que compõem a UTI e, recentemente, foi desenvolvido um aplicativo que concentra no celular dos profissionais um checklist com informações que são alimentadas a cada mudança de plantão.

Miranda destaca ainda o modelo horizontal de atendimento do CopaStar, que privilegia mais médicos diaristas e menos plantonistas. Segundo ele, a conta da equipe do hospital varia de acordo com a gravidade dos pacientes e do perfil arquitetônico de cada emergência. Isso porque no CopaStar, há estrutura de UTI aberta e também de suítes. Nos quartos, a necessidade por profissionais é maior devido à visibilidade dos pacientes.

O hospital Leforte também tem um modelo diferenciado de UTI. Todos os médicos dos turnos diurnos são especializados em terapia intensiva e a equipe é sempre a mesma. De acordo com o coordenador corporativo das UTIs do Leforte Morumbi e Liberdade, Tomaz Crochemore, o médico especialista conhece a fundo o dia a dia dos equipamentos e dos cuidados em situações de emergência, o que se traduz em melhores resultados. Desde que o novo modelo foi implantado na unidade Morumbi há um ano, o tempo de internação nos 20 leitos da UTI caiu em torno de 50%.

Crochemore chama a atenção para o fato de os especialistas terem aptidões para identificar problemas e riscos mais precocemente, o que aprimora os prognósticos e, consequentemente, a segurança dos pacientes. O ponto da segurança é, na opinião do pesquisador márcio Soares, o eixo central quando se fala em tendências para o setor de UTIs. “A discussão é cada vez mais sobre como não adicionar complicações de curto e longo prazos, o que abrange infecções, quedas e o próprio tratamento”, diz. em 2018, o Brasil por meio da AMIB aderiu à campanha Choosing Wisely lançada nos EUA para conscientizar a área médica que alguns procedimentos são desnecessários e até lesivos para os pacientes.

Por Raquel Gondim - Dez/2018
Números que norteiam a gestão do cuidado
Telefone com fio

Publicações similares

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Preencha esse campo
Preencha esse campo
Digite um endereço de e-mail válido.
Você precisa concordar com os termos para prosseguir

Menu