Bate-papo com gestores de qualidade

Uma análise realista sobre os desafios dos Escritórios de Qualidade no Brasil

Bate-papo com gestores de qualidade

Uma análise realista sobre os desafios dos Escritórios de Qualidade no Brasil

O setor da qualidade nas instituições de saúde pode ser encarado, à primeira vista, apenas como uma equipe que cobra os protocolos assistenciais e alinha as necessidades de melhoria da instituição durante os processos de acreditação. No entanto, o seu trabalho é amplo, complexo e abrangente. O setor é estratégico e está envolvido em todos os principais processos que mantém a qualidade de um hospital, com o planejamento, o treinamento de colaboradores, a organização, a estratégia, os orçamentos, gestão de suprimentos, a engenharia, a manutenção e claro, na área assistencial com protocolos de cuidado ao paciente e seus familiares.

Para falar mais sobre a complexidade deste trabalho, suas dificuldades e o perfil deste profissional, a mP convidou representantes da qualidade de algumas das principais instituições de saúde. Acompanhe:

1. PERCEPÇÃO SOBRE O SETOR É SUBDIMENSIONADA

Paola Andreoli, gerente de Qualidade e Segurança do Paciente do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, comenta sobre a impressão superficial que as pessoas podem ter sobre o setor e a importância do trabalho da qualidade em uma instituição de saúde.

“Muitas vezes na área da saúde há uma falsa percepção de que o setor da qualidade tem a ver apenas com a assistência ao paciente, por isso diversas vezes nós vemos as áreas de apoio com dificuldades de participar da qualidade. As próprias certificadoras têm um foco bem grande para mostrar que a qualidade abrange a cooperação conjunta de todo o serviço de saúde, pois todos estão juntos nestes sistemas, tudo aqui faz parte da assistência ou dá suporte a ela, também está dentro da qualidade”.

De acordo com a gerente, a qualidade precisa garantir que toda a gestão, seja ela de assistência ou administração, esteja alinhada para alcançar um objetivo único, que é cuidar da melhor forma. Este processo já é comum na indústria, como é o caso da Toyota com seus sistemas como o Lean e Kata que trabalham diariamente a melhoria de processos em todas as suas fases.

“As atividades que levam a isso são diversas e vão desde o planejamento estratégico, os orçamentos, a gestão de suprimentos, os equipamentos, até a assistência, em que trabalho os protocolos, valores, indicadores de qualidade e todos os elementos essenciais para a melhoria contínua da instituição. São processos da indústria que estamos adaptando para a realidade da saúde”, detalha Paola.

2. GESTOR DA QUALIDADE

Maria Magalhães, gestora da Qualidade e Segurança Corporativa da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), ressalta que a gerência de qualidade é uma mediadora ou facilitadora do processo de melhoria.

“Na realidade, quem tem o poder para implantar uma gestão de qualidade é o alto executivo do hospital. A direção técnica da instituição precisa entender esta necessidade e implantar o processo. O setor de qualidade é uma referência técnica. Ele funciona como um consultor de qualidade dentro da instituição. Por exemplo, se eu sou chefe de uma equipe e colocar como regra aos meus funcionários que eles devem lavar as mãos, sou quem deve fiscalizar, já a qualidade fará a orientação de como desenvolver melhor esta ação”, explica.

A representante da SPDM também ressalta que algumas dificuldades enfrentadas por estes profissionais durante os processos de adequação ou mudanças e que existem metodologias adequadas, principalmente para conscientizar os colaboradores sobre a importância de absorver e praticar a cultura da melhoria contínua na empresa.

“Ainda existe resistência de colaboradores quando auxiliamos em processos de melhoria, mas o que define é a maneira da abordagem. A forma do adulto aprender é diferente. Quando se tenta colocar um modelo pré-fabricado e impor para todos, não funciona, pois gera resistência na ponta da cadeia. Uma solução para esta dificuldade é escutar a ponta, entender a sua realidade, e adaptar os processos para aquela realidade. Fazê-lo se sentir parte da mudança, compartilhando cada etapa de melhoria como uma vitória de todos”, comenta Maria Magalhães.

Ela afirma que outra estratégia para evitar este problema tem sido a forte capacitação do corpo clínico em qualidade e segurança, além da construção de planos em que a alta administração consegue definir, de maneira clara, as responsabilidades de cada setor durante a implantação dos processos de melhoria.

3. CONSTRUINDO TIMES A PARTIR DA LIDERANÇA

Semeia Corral, gerente de Qualidade e Melhores Práticas Assistenciais do Hospital do Coração – HCOr destaca a importância do apoio da liderança principal dos hospitais.

“Uma instituição onde não há apoio do CEO e da alta gestão é a uma das maiores dificuldades do setores de qualidade. Esta é uma mudança ou um processo que começa de cima para baixo. Se essa direção não acredita e não põe o discurso na prática, a qualidade não consegue força para evoluir”, diz Semeia.

Quando há este apoio é possível unificar todos os setores no mesmo compromisso. Para que isso ocorra, Semeia destaca que os profissionais da qualidade precisam formar equipes multidisciplinares com diversas habilidades de gestão, qualidade, segurança, melhoria, além das expertises específicas das áreas em que são formados, como administração, medicina e enfermagem.

“Além de todas as altas habilidades, estes profissionais precisam de empatia, compaixão, liderança, conhecimento de processos, ferramentas de qualidade, etc. o profissional da qualidade precisa ter a capacidade de mobilizar para conseguir engajar, convencer e motivar as pessoas a realizar as ações que precisamos fazer. A liderança positiva e a compreensão da parte humana do trabalho são essenciais para quem busca motivar um público a participar de qualquer processo de melhoria”, detalha Semeia.

Por Diego Andrade - Dez/2018

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