Acreditação e cuidados psiquiátricos: combatendo o estigma ao paciente no Rio de Janeiro

Clínica é a primeira desse seguimento a ganhar um selo de acreditação com excelência.

Acreditação e cuidados psiquiátricos: combatendo o estigma ao paciente no Rio de Janeiro

Clínica é a primeira desse seguimento a ganhar um selo de acreditação com excelência.

A internação de pacientes psiquiátricos e dependentes químicos não são comumente lembrados como referência em humanização. A representação mais comum é o de um lugar onde nem sempre a dignidade e a segurança do paciente são respeitados. Mas, no Rio de Janeiro, uma clínica tem trabalhado desde 2015 para mudar essa perspectiva e lutar também contra o psicofobia, o preconceito contra as pessoas com transtornos e deficiências mentais. E apenas dois anos, o Espaço Clif se tornou a primeira unidade desse segmento a receber da ONA a Acreditação com Excelência.

Uma das sócias da clínica, a psicóloga e especialista em dependência química Sabrina Presman, conta que um dos fatores que motivou a corrida pela excelência do serviço prestado é o cenário em que o Brasil vive atualmente, que faz com que a população busque cada vez mais por esse tipo de tratamento. “A ideia de implantar um processo de qualidade e focado na segurança do paciente é uma grande oportunidade de diminuir o estigma que esse tipo de tratamento possui. Adaptar uma unidade para atender portadores de transtornos psiquiátricos a um modelo de acreditação é, sem dúvida, um desafio, mas ajuda a mostrar à sociedade que é possível realizar (o cuidado) de forma humana, técnica, adequada e segura”, afirma.

Roberta Torquato, consultora de qualidade e segurança que prestou serviço para a clínica, explica que o trabalho não foi realizado de uma hora para outra e que foram necessárias algumas adaptações no estabelecimento. “Quando a instituição me procurou para implantar o processo de qualidade e segurança, eles já vinham se auto-avaliando e registrando o quanto a qualidade oferecida era percebida pelos pacientes, familiares e os colaboradores.”

O trabalho rumo ao ONA 3 começou em 2015, com a revisão do planejamento estratégico. “Uma de suas dimensões era trabalhar fortemente a qualidade e a segurança da instituição, com todos os processos mapeados, delimitados e claramente difundidos em todas as partes. O preparo da ONA 3 seguiu fortalecendo para a instituição o quão importante era demonstrar esse trabalho, os resultados de tudo que já existia internamente”, contou Torquato.

Presman esclarece que para se chegar a um time de alta performance e conseguir colocar em práticas essas recomendações, foi necessário um investimento em preparação para que a visão estratégica da instituição se refletisse no dia a dia de cada um dos funcionários. “Em geral, quando uma unidade resolve investir na implantação de um trabalho de acreditação, busca-se visitar outras instituições que já passaram pelo processo ou mesmo buscar na literatura referências desse trabalho. No nosso caso, isso não existia. O time de liderança teve o desafio de implementar do zero a construção de uma política de segurança, os processos primários e cada um dos processos operacionais e protocolos”, explicou. O trabalho começou com o desmembramento do planejamento estratégico, para instituir quais as melhores práticas dentro da psiquiatria.

Para estimular uma cultura de melhoria contínua, foi desenvolvido um aplicativo institucional para que todos os funcionários pudessem notificar oportunidades de melhoria, eventos adversos e o que o colaborador achasse importante. Essas notificações são lidas em reunião com a alta gestão e o time de alta performance, o que propiciou desde o princípio uma visão bem ampla de como os colaboradores estavam enxergando o processo e também o quanto a cultura de segurança estava sendo absorvida pela instituição.

As notificações enviadas no aplicativo são respondidas pelo time de liderança, deixando disponível aos colaboradores retornos sobre que medidas foram tomadas aumentando a percepção de que cada colaborador podia opinar e fazer a diferença. Para que as mensagens fossem mais qualificadas, a clínica fez treinamentos para explicar o que eram eventos adversos, quase falhas, queixas, sugestões, entre outros termos. Com o tempo, essas informações também passaram a ser incluídas nas notificações.

Paralelamente a esse trabalho com os colaboradores, o olhar para o prontuário foi um dos pilares para segurança do paciente. Além da construção de um modelo próprio de auditoria de prontuário, a instituição percebeu a necessidade da criar planos terapêuticos individualizados para cada paciente, visto que muitas vezes eles apresentam múltiplos transtornos psiquiátricos e nem sempre são internados por sua própria vontade.

“O desafio de construir um processo estruturado, mas que contemplasse a complexidade do atendimento ao paciente psiquiátrico motivou a equipe a ir além. A construção de um plano que institui metas a serem trabalhadas com cada paciente de forma a que, durante todo o cuidado, pudéssemos estruturar as ações voltadas para as necessidades individuais e também mensurar o quanto forma atingida trouxe qualidade e assertividade do processo terapêutico”, disse.

Sabrina garante que este investimento se tornou um exemplo para a clínica de que o cuidado psiquiátrico também pode ser qualificado. Ela acredita que o Espaço Clif é uma oportunidade para que outras instituições entendam a importância de garantir esse olhar diferenciado.

Por Raphaela Cunha - Ago/2019
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