MP Comenta: Choosing Wisely

3 anos depois, as decisões de médicos e pacientes têm sido mais sábias?

MP Comenta: Choosing Wisely

3 anos depois, as decisões de médicos e pacientes têm sido mais sábias?

Lançado em 2012, pelo American Board of Internal Medicine Foundation(ABIM Foundation)e com início no Brasil em 2015, o movimento Choosing Wisely foi tema de reportagem da Melhores Práticas, em 2016. A matéria mostra os primeiros passos da campanha, voltada para reflexão sobre eficiência clínica e combate a práticas que não sejam baseadas em evidências científicas. Na época, já haviam aderido ao Choosing Wisely as sociedades brasileiras de Cardiologia (SBC) e de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) demonstrava interesse em participar.

O que mudou?

Segundo Lucas Santos Zambon, diretor científico do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente, hoje 10 grupos de profissionais produziram recomendações de “escolhas sábias”. Estão em desenvolvimento as recomendações da Associação Brasileira de Fisioterapia Traumato-Ortopédica e da Sociedade Brasileira de Infectologia, sem data definida para o lançamento. Para a Cirurgia Oncológica, a definição do que seria recomendado não foi feita. Oficialmente apenas 7 hospitais e instituições de ensino aderiram ao movimento (v. lista completa abaixo).

Um dos pioneiros do movimento no Brasil, o cardiologista Luis Correia, do Hospital São Rafael, de Salvador, pondera que as sociedades médicas recebem com entusiasmo a reflexão provocada pelo Choosing Wisely. Correia afirma, porém, que é preciso mais para que ocorra uma mudança de comportamento. “Há conflito de interesses, mas a questão vai além disso. É uma questão biológica e cultural, e passa pelo que eu chamo de mentalidade do médico ativo, que acredita ser melhor fazer do que não fazer”, aponta.

Correia avalia que o movimento Choosing Wisely tem crescido e ressalta que é uma iniciativa que partiu dos próprios médicos, sem a participação de organismos governamentais. “As sociedades médicas apontam, com autonomia, o que não se deve fazer. Não é nada impositivo, elaborado para cercear a atuação médica, mas que serve para evitar condutas que, em excesso, podem causar danos”, diz. O especialista vê na confluência com outros movimentos, como o Slow Medicine, um caminho para expandir as discussões para um público mais amplo.

Acesse as recomendações Choosing Wisely desenvolvidas no Brasil, de 2015 a 2019:

Sociedade Brasileira de Cardiologia

Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade

Academia Brasileira de Medicina Hospitalar

Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia

Sociedade Brasileira de Mastologia

Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia

Sociedade Brasileira de Nefrologia

Federação Brasileira de Gastroenterologia

Associação de Medicina Intensiva Brasileira

Instituições que aderiram oficialmente ao movimento:

– Hospital São Rafael, de Salvador

– Hospital da Cruz Vermelha do Paraná

– Hospital de Clínicas de Porto Alegre

– Hospital Paulo Sacramento, de Jundiaí (SP)

– Hospital Geral Cleriston Andrade, de Feira de Santana (BA)

– Hospital Santa Cecília, de São Paulo

– Escola Bahiana de Medicina e Saúde

Novo olhar sobre desperdício e diálogo

A expansão do Choosing Wisely traz com ela discussões sobre o que é, de fato, desperdício de recursos na área da saúde. Helidea Lima, diretora de Qualidade Assistencial da Rede D’Or São Luiz, alerta que a sustentabilidade é pensada no movimento a partir do conceito de economia clínica, que leva em conta o custo clínico (dano) ou pessoal (insatisfação) para o paciente. “Esse custo deve ser contrabalançado com o benefício recebido pelo paciente que se submete à conduta. O uso racional de exames ou tratamentos vai ao encontro de uma maior probabilidade de benefício do que de dano. Portanto, Chossing Wisely passa pelo entendimento de que a ‘pele em jogo’ é a do paciente. Profissionalismo é decidir baseado no benefício clínico individual”, aponta.

Para Lucas Zambon, é necessário esclarecer que o Choosing Wisely não tem como foco a dimensão financeira ou de sustentabilidade. “Não é uma estratégia de contenção de custos. Como o próprio nome diz, o movimento procura estimular escolhas sábias, tanto por parte do médico quanto do paciente, valendo-se do diálogo e da decisão compartilhados, e sempre com base nas melhores evidências científicas”, afirma. “Se, por um lado há intervenções sendo feitas de forma exagerada (overuse), há evidências igualmente contundentes para muitas coisas que deixamos de fazer (underuse). Sendo assim, o que devemos buscar é o equilíbrio, realizando as intervenções corretas, para o paciente apropriado e no momento oportuno.” Zambon aponta o diálogo como aspecto fundamental do Choosing Wisely. “O médico da atualidade deve estar pronto para, de fato, aconselhar o paciente, apresentando explicações coerentes e baseadas em evidências. Isso exige muito mais do profissional do ponto de vista de estudo e conhecimento, mas traz a oportunidade da construção de uma relação saudável e de confiança entre médico e paciente”, afirma.

Por Pablo de Oliveira Lopes - Ago/2019
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