Caiu na rede

Como as redes sociais e smartphones transformaram o modo como a sociedade produz, compartilha e se relaciona com a informação e o impacto dessa mudança no dia a dia dos profissionais da saúde

Caiu na rede

Como as redes sociais e smartphones transformaram o modo como a sociedade produz, compartilha e se relaciona com a informação e o impacto dessa mudança no dia a dia dos profissionais da saúde

A internet é presença indiscutível na vida do brasileiro. De acordo com pesquisa publicada em 2015 pela agência internacional We Are Social, o país está entre as nações mais conectadas do mundo. São mais de 9horas on-line por dia, sendo que, dessas, 5h e 26 minutos são provenientes de tablets ou telefones móveis. O fenômeno acompanha um movimento mundial de popularização da internet. Nos últimos 12 anos, a conectividade permitida pelas redes sociais, potencializada pela mobilidade trazida pelos smartphones, tem mudado a forma como se recebe e se compartilha informação. Uma mudança intensa que afetou profundamente as relações pessoais e profissionais dos indivíduos em todo o planeta.

No ambiente de trabalho, em especial no hospitalar, são constantes os eventos e procedimentos que exigem foco e atenção das equipes. E, por isso, esse amplo acesso às redes sociais faz soar um alerta. Por um lado, os aparelhos repletos de possibilidades são ferramentas úteis para otimizar a comunicação interna e acessar profissionais e conteúdo de forma rápida e eficiente, por outro, os recursos para fazer anotações, registrar, gravar, fotografar e trocar mensagens são potencialmente um problema quando usados de forma indevida, já que as informações, em minutos, podem ser compartilhadas com um número expressivo de pessoas de forma descontrolada. Isso sem falar na mistura das esferas pessoal e profissional.

A velocidade da mudança tem sido tão intensa que não houve tempo de as empresas (nem a sociedade como um todo) se organizarem para conciliar os benefícios dessas novas tecnologias e, ao mesmo tempo, prevenir-se dos efeitos que o uso indevido pode acarretar.

Em primeiro lugar, via de regra, é necessário recorrer ao bom senso, às normas da instituição, à observação dos princípios éticos e às boas práticas. É o que pensa Angela Blatt Ortiga, enfermeira há 30 anos que atua como secretária do Conselho Regional de Enfermagem de Santa Catarina (Coren-SC). Estudiosa do assunto, dá palestras em universidades e hospitais esclarecendo os limites de utilização das redes.

Nesses encontros, ela ressalta os prós e contras da utilização de aparelhos celulares e aplicativos no dia a dia dos enfermeiros. Entre as vantagens está o fato de a rede social ampliar a facilidade de comunicação com baixo custo, e as pessoas terem acesso e ser um meio útil para socializar as boas práticas não apenas com as equipes, mas também com a comunidade em geral.

Entre as situações delicadas estão aquelas ligadas à segurança do paciente, já que os aparelhos telefônicos móveis não estão devidamente higienizados e podem ser um fator de contaminação. Como elemento de distração, podem contribuir com a falha humana.

Durante as palestras, os limites de utilização das redes sociais sempre despertam questionamentos dos participantes. As perguntas mais frequentes são a adequação a respeito de publicações, fotografias e gravações realizadas dentro do ambiente de trabalho e o seu impacto. A resposta é taxativa: “Frases, reclamações e expressões como ‘todo mundo saiu e eu fiquei sozinho’, ou ‘plantão mais ou menos’ podem prejudicar a imagem do colaborador e da instituição, apesar de parecerem inofensivas. Não é só uma questão pessoal, você está lidando com privacidade, direito autoral, ética profissional”, explica a enfermeira.

Comentários sobre pacientes, ainda que sejam positivos, podem desagradar quem está em situação de vulnerabilidade ou simplesmente não gostaria de ter sua intimidade exposta. Inclusive, não são poucas as reclamações e denúncias que chegam ao Conselho sobre o uso indevido das redes, daí a necessidade de orientar. Inserir estranhos nos grupos de whatsapp ou repassar conteúdo profissional a grupos pessoais também pode gerar desconforto ou mesmo permitir que informações sigilosas sejam vazadas para a imprensa.

Demissões por mau uso já não são uma novidade. Não são casos isolados e tampouco restritos à realidade nacional, tanto que algumas instituições e associações nos EUA, por exemplo, criaram e disponibilizaram materiais on-line abordando o assunto. A National Council of State Boards of Nursing lançou o The Nurse’s Guide to the Use of Social Media (www.ncsbn. org/NCSBN_SocialMedia.pdf), manual detalhado de como profissionais da enfermagem devem se portar na utilização das redes sociais. No Brasil, nos sites do Coren e do Conselho Regional de Medicina, também é possível encontrar artigos e orientações sobre o tema.

O Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem Resolução Cofen nº 311, de 8 de fevereiro de 2007, traz regulamentações que valem também para a atuação nas redes sociais, como a restrição a “inserir imagens ou informações que possam identificar pessoas e instituições sem sua prévia autorização”.

Por sua vez, o Código de Ética Médica, apesar de permitir aos médicos a divulgação em seu perfil nas redes sociais de dados sobre sua especialidade, CRM e local onde atendem, proíbem a distribuição e publicação de fotos tiradas com pa- cientes em locais de atendimento, como cirurgias ou consultas. É vedado ainda ao profissional consultar, diagnosticar ou prescrever por qualquer meio de comunicação em massa. Já o Marco Civil da Internet, desde 2014 em vigor, mas regulamentado neste ano, estabelece os direitos e deveres para usuários e provedores, o que promete diminuir ou ao menos facilitar a delegação de responsabilidades e diminuir a sensação de que a web é um território sem lei.

Cabe lembrar que, apesar de a nova forma de se relacionar com a informação ter se incorporado completamente à vida das pessoas, as sanções legais presentes no mundo real se aplicam também ao mundo virtual e, inclusive, o conteúdo publicado pode servir como uma prova, igual a outra qualquer, em processos legais.

De acordo com Flávio Pires, sócio do setor trabalhista do escritório Siqueira Castro Advogados, há uma linha muito tênue quando se fala em direito à privacidade e no que isso pode interferir para terceiros.

Do ponto de vista jurídico, quanto mais claros estiverem os termos, melhor, tanto para o hospital como para o empregado. “Quando temos dentro da empresa um regimento claro do que se pode ou não fazer, seja por meio de um manual ou de uma circular, não há como alegar desconhecimento das normas. Algumas pessoas preferem inseri-las no contrato de trabalho, mas também podem fazer uma simples menção de que o funcionário fica submetido às regras da empresa”, explica Flávio Pires

Independentemente das normas estarem ou não no contrato, o empregador tem o poder diretivo da empresa e pode, inclusive, proibir ou limitar o uso dos aparelhos celulares e acesso a redes sociais durante o expediente. Por descumprimento, o funcionário pode receber diferentes penalidades, como advertência verbal, escrita, suspensão e até demissão por justa causa, claro, atentando aos princípios da razoabilidade e proporcionalidade, analisando-se caso a caso. Mas o advogado alerta que essa questão é uma via de mão dupla. O empregador que, por exemplo, aproveita o uso de aplicativos, sistemas de mensagens instantâneas ou outros meios para solicitar coisas fora do horário de trabalho pode ser penalizado. “Este pode ter que pagar horas extras, adicional noturno ou, dependendo do caso, até sofrer o pedido de remissão do contrato por justa causa por parte do funcionário”, pontua Pires.

No Brasil, há casos de proibição estrita de uso, como a que aconteceu em Mato Grosso. O secretário de Saúde de Cuiabá, Ary Soares de Souza Junior, por meio da Portaria 20/2015, proibiu o uso de aparelhos celulares ou similares durante o expediente de trabalho para funções como internet, mídias e redes sociais e emissões de sons, como ouvir músicas, vídeos ou similares, dentro das unidades de saúde de Cuiabá.

Do ponto de vista da gestão, embora proibir seja uma possibilidade, também é uma medida rígida que impede a utilização do melhor que a união de smartphones com aplicativos e redes sociais pode oferecer.

Segundo Paula Gallo, gerente de marketing do Hospital Santa Paula, hoje em dia é inviável não acompanhar a velocidade das informações por meio da tecnologia disponível. Para se prevenir, o hospital, que está presente em algumas redes sociais, como Instagram, Facebook e Linkedin, tem contínuo monitoramento para que o uso seja realmente para informação e atualização.

A utilização de grupos de whatsapp é permitida para agilizar a comunicação entre os profissionais e a tomada de decisões, além de diminuir o número de reuniões desnecessárias. “Porém tomamos o cuidado de não envolver nos grupos pessoas que não podem usar o celular durante o horário de trabalho, como os assistentes da UTI e recepcionistas. Hoje temos uma campanha forte internamente para a conscientização do uso adequado do celular”, afirma Paula Gallo.

O equilíbrio, como em tudo, está no bom senso.

Por Dani Dias Ferreira - Nov/2016


Desperdício na ponta
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