Pesquisa médica no Brasil

Fixadas, na maior parte das vezes, nos hospitais universitários, instituições de ensino e pesquisa ainda têm muito o que evoluir; são poucos os hospitais privados que investem na área

Pesquisa médica no Brasil

Fixadas, na maior parte das vezes, nos hospitais universitários, instituições de ensino e pesquisa ainda têm muito o que evoluir; são poucos os hospitais privados que investem na área

Em maio deste ano, a neurocientista e pesquisadora Suzana Herculano-Houzel aceitou uma proposta de trabalho nos Estados Unidos, deixando de fazer pesquisa em seu país natal. O fato, que na maior parte dos setores soaria como algo comum, virou notícia entre seus colegas no meio e gerou uma discussão: faltam recursos para a pesquisa médica no Brasil?

Em entrevista à Globo News, também em maio, a própria Suzana disse que sim. De acordo com ela, desde 2015 a verba deixou de ser repassada. “Eu deixei de receber novos alunos, inclusive estrangeiros, porque os recursos para o trabalho de pesquisa deixaram de ser pagos”, disse na época. Ela atuava dentro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Culturalmente, o Brasil é um país no qual a iniciativa privada investe pouco em pesquisa. Em praticamente todos os setores, a academia é a responsável por esse segmento e atua de forma muito distante da indústria. Na área médica não é diferente.

A ausência de diálogo entre cientistas e iniciativa privada gera alguns resultados ruins para o país. O déficit da balança comercial de medicamentos, por exemplo, é de US$11 bilhões por ano. Já o de equipamentos é de US$4,5 bilhões. O país está longe de ser autossustentável nesses setores, mas, na opinião do diretor de ensino e pesquisa do Hospital Sírio-Libanês, Luiz Fernando Reis, a diferença poderia ser menor se houvesse mais conversas entre a academia e a indústria.

“O conhecimento está na academia, enquanto a inovação está na indústria. Esses dois mundos precisam conversar. Fazer pesquisa é transformar dinheiro em conhecimento. Agora nós precisamos fazer o caminho de volta e transformar esse conhecimento em benefícios para a sociedade”, completa. O Sírio-Libanês é um dos poucos hospitais fora do meio universitário que investe em pesquisa no Brasil. O hospital possui o Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) com cursos de especialização, residência, mestrado e doutorado.

Segundo Reis, nos últimos 10 anos houve um aumento da quantidade da produção científica do país. Ele atribui o crescimento, entre outros fatores, ao papel desempenhado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), fundação do Ministério da Educação (MEC).

“Hoje, o país passa por um segundo desafio, que é a qualidade do conhecimento gerado. Nós precisamos dar mais consistência à pesquisa médica. Nossa produção ainda gera pouco impacto na melhoria da assistência”, afirma. De acordo com ele, os esforços do IEP do Sírio-Libanês estão voltados principalmente para o desenvolvimento institucional do Sistema Único de Saúde (SUS). Pesquisas nessa linha são incentivadas pelo Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (PROADI- SUS), do Ministério da Saúde. A contribuição se dá por meio do desenvolvimento, incorporação e transferência de novas tecnologias e experiências em gestão, gerando novos conhecimentos e práticas, a partir de parceria entre entidades de saúde de reconhecida excelência e os gestores do SUS.

A ideia é a atuação em conjunto na superação de desafios, melhoria e qualificação de áreas estratégicas na gestão e prestação do serviço público de saúde no país. O PROADI-SUS tem sido um importante financiador da pesquisa médica. O diretor de pesquisa do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein, Luiz Rizzo, também cita o programa como um dos financiadores dos projetos da instituição. O foco das pesquisas dessa instituição é o envelhecimento sustentável.

As entidades, associações e fundações privadas sem fins lucrativos, como o Sírio- Libanês e o Albert Einstein, ainda podem usufruir do Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica (PRONON) e do Programa Nacional de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com Deficiência (PRONAS/ PCD), criados para incentivar ações e serviços desses órgãos no campo da oncologia e da pessoa com deficiência.

O diretor do Instituto de Pesquisa do Hospital do Coração (HCor) Otávio Berwanger, acredita que o financiamento baixo por parte da iniciativa privada é o principal desafio do setor. Ele destaca que nos últimos anos houve um aumento nos investimentos, mas o valor ainda é baixo. “Houve um crescente que parou nos últimos dois anos devido à crise econômica. A expectativa é que, passada essa fase, os aportes voltem”, afirma.

O Instituto de Pesquisa do HCor tem foco prioritário em pesquisas clínicas de doenças cardiológicas. O financiamento é por projeto, assim como acontece nos outros institutos. “Ver hospitais privados com institutos de pesquisa já é uma grande evolução. Antes, a pesquisa era vista apenas como gasto”, lembra Berwanger. Ele afirma que, inicialmente, o Instituto exigiu investimento do hospital, mas hoje já gera receita.

Todos os três institutos ouvidos nessa reportagem disseram que suas atividades geram lucro para as instituições em que estão instalados. Nenhum deles revelou valores. “A pesquisa não deve ser feita com cunho comercial somente, mas também não pode ser vista apenas como despesa”, completa o diretor do Instituto de Pesquisa do HCor.

Outros desafios

Além da questão financeira, a pesquisa médica enfrenta outros desafios. Capacitação de pessoal, burocracia do processo, câmbio e competitividade são alguns deles. Rizzo destaca que a formação dos profissionais começa na educação básica. “É preciso melhorar a educação desde a infância, na escola, até a formação médica, nas universidades. Quando você vai olhar os rankings mundiais, nossos alunos estão muito abaixo da média se comparados a outros países”, observa Berwanger concorda: “Falta capacitação entre os pro- fissionais para atuar com pesquisa. A pesquisa clínica deveria ser vista como uma especialidade dentro da medicina”, diz. Do ponto de vista burocrático, a demora na aprovação de processos éticos e regulatórios é um entrave para o crescimento da pesquisa médica. Além disso, questões cambiais também interferem. “A pesquisa tem um orçamento que é planejado a partir do câmbio, já que muitos insumos são importados, mas as variações no decorrer do projeto atrapalham bastante”, ressalta Rizzo. Ele ainda lembra que os prazos burocráticos para importação desses insumos são muito longos.

Outro desafio é a competitividade entre os institutos de pesquisa que dificilmente compartilham dados e informações, prejudicando a evolução dos estudos. Recentemente, o governo norte-americano anunciou um plano chamado Moonshot, com orçamento de US$1 bilhão. O objetivo é a colaboração entre pesquisadores, médicos e entidades para catalisar os avanços na área oncológica.

“Se não houvesse ciúme entre laboratórios e grupos de pesquisa, poderíamos evitar redundâncias desnecessárias das pesquisas”, disse o vice-presidente norte-americano, Joe Biden, ao anunciar o programa. “Vocês [oncologistas] aprenderam que não dá para trabalhar sozinho”, completou. Para o diretor do Instituto de Pesquisa do HCor, as redes de colaboração são tendência dentro da pesquisa médica, e o cenário de competitividade deve melhorar nos próximos anos. Todos os diretores de institutos ouvidos pela reporta- gem afirmaram ter parcerias com universidades e centros de pesquisa no Brasil e no exterior.

Por Julia Duarte - Nov/2016


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